quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Em meu planeta


Para onde for
levo-me por inteiro
sempre e tanto e
intensamente

Em cada canto
o que comumente sou
perto ou longe
infinitamente

Teresina
06/08/2009

Eduardo Borges

sábado, 15 de agosto de 2009





esta noite é como todas as noites
ninguém virá e eu não sairei para
ver os navios presos no chão cinza
da minha cidade vapor – nada de esperas
nada de horas marcadas em lugares prévios
esta noite é como todas as noites

eduardo borges
teresina 11/08/2009

domingo, 2 de agosto de 2009





Oh minha cidade


Certa vez um homem do sul perguntou-me: “- Em São Luís tem máquina de Xérox”? E eu respondi obediente e educado: “- Sim, lá tem máquina de Xérox”. Nunca pensei que fosse possível esta pergunta. Mas ocorreu de me perguntarem assim no meio da multidão, com uma naturalidade altiva. Bem, teria preferido noticiar que São Luís era uma cidade de objetos passados, de dejetos nas ruas, becos com nomes duplos – um de gente e outro de coisa -, museus de correntes negreiras, uma enorme serpente viva na Fonte do Ribeirão, igrejas ligadas por túneis e casas velhas. Cidade de mar e sal, cheia de homens e mulheres que viviam e batiam xérox. Andavam de carro do centro até o Viaduto do Café, embora em minha cidade nunca tenha havido um cafezal sequer. Mas tinha Xérox já em 1985. Na Rua Grande, a rua do comércio, os livros eram copiados e os papéis saíam quentes, como pães feitos naquela hora. Estava pronto para uma outra pergunta, que não veio: “ – Sim, em São Luís tem computador”. Mas a coisa é que jamais poderia dizer que em minha cidade francesa e portuguesa, lisboeta e parisiense em versos e sonhos de navios, tudo, todos os objetos e esquinas, tudo era um tipo de desculpa para viver o além da realidade, feita de Xérox. As coisas atravessavam os invisíveis túmulos das ruas do Sol e da Paz. E da Praça Dos Amores com a estátua de Gonçalves Dias. Não saberia explicar àquele rapaz de outro Brasil a tecnologia de minha cidade, muito, muito mais profunda que a mágica máquina de Xérox. Nem conseguiria levar ao seu cérebro o fedor do Poema Sujo saindo eternamente das palavras (Dentro da Noite Veloz) – se ele tivesse lido Gullar não perguntaria sobre uma máquina, falaria de gente nos quartos nus em redes. Não pude presenteá-lo com a indigência nordestina, com a indolência dos relógios parados sem olhos em paredes de azulejos multicoloridos, com a preguiça do calor infernal de um ponto no trópico latino. Sim, São Luís tinha Xérox na década de oitenta e poemas e corações aflitos. Isso foi há vinte e um anos atrás e São Luís tem a mesma alma.

*



Hemofílico




Meu sangue
Escorre monotonia
Ondas de calor
Asfalto de uma avenida
Perdida

Eduardo Borges
(Teresina-PI)
11/12/07

Na Paulista





Queria ser como
O homem sentado
No Jardim das Flores
Na Paulista em sua consciência
O tempo atrás
Inerte insone
Alheio ao vento
Ao barulho dos carros
Rindo para o nada.


17/10/06
Eduardo Borges

domingo, 19 de julho de 2009








Ricardo Borges
rborges.net


bicho-eu




ainda o mesmo

e aos poucos o

que de mim

se move e

assombra

este bicho que

sou e desconheço


Ricardo Borges
rborges.net


sexta-feira, 3 de julho de 2009






Olhos no mundo


A lucidez é uma delinqüência social
Estar exposto entre animais e ferro
Ver as flores no mundo que queimam
Ferrugens nas asas do avião cruzando o céu
Coragem em manter-se acordado nas muitas mutilações
Viver sem as fugas dos líquidos e dos pós inebriantes
Uma fera entre homens armados

A Consciência é a loucura incompreendida

Teresina, 11/04/08
Eduardo Borges

terça-feira, 23 de junho de 2009

r e le i tu r a





William Shakespeare:


"Aprendi que as palavras de amor perdem o sentido,
quando usadas sem critério.
E que amigos não são apenas para guardar no fundo do peito,
mas para mostrar que são amigos.
Aprendi que certas pessoas vão embora da nossa vida de qualquer
maneira, mesmo que desejemos retê-las para sempre.
Aprendi, afinal, que é difícil traçar uma linha entre ser gentil,
não ferir as pessoas, e saber lutar pelas coisas em que acredito.”


eu, depois de injetar William Shakespeare:

Afinal

Aprendo com dificuldade a lógica da vida
E mal falo do amor por não saber vivê-lo
Por não ter critérios nem livros sem letras: sigo a racionalidade
Meu peito é terreno baldio, terra de ninguém
Não se entra e não se sai
É prisão sem chave porta aviso cadeado quebrado
Aprendo sem final, afinal

terça-feira, 2 de junho de 2009






Habitat




Homens são folhas secas
Em cidades desertos povoados
Vendavais de areia acariciam
Faces duras dunas edifícios montanhosos

Teresina, 13/2/08
Eduardo Borges