A publicação do ROTEIRO DO DESJUSTE foi adiada, a quem interessar possa. Claro que escrevo este fato para mim mesmo (sempre escrevo para mim mesmo!), como uma forma de digerir a frustração. Falta grana. Tinha pensado um projeto visual interessante. Agora é esperar para publicar mais um livro que não será lido. Por enquanto vou postando alguns poemas do trabalho aqui:
Cartografia dos medunas
Pego a caneta e rabisco
A geografia do poema
É mesma do globo
Uma palavra é relevo
Conceitos imperialistas
Todos escrevem diferente
Sou brasileiro e estrangeiro
No sul se é pobre
O Norte é acima
Parágrafos são continentes
Os dicionários falam de política
O homem é população
Reconstruo a geografia dos mapas
Os homens em diversas cores
Palavras fronteiriças
Guerra de nervos
Pego a caneta e divido o território
O sofrimento está nos mapas
Passo a régua entre a pobreza e os ricos
Nas diversas Américas
O poema é em si um país
Teresina, 17/04/08
Eduardo Borges
sexta-feira, 3 de abril de 2009
domingo, 8 de março de 2009
Dia Internacional da Mulher
No dia Internacional das mulheres devemos lembrar que as diferenças de gênero quase nunca são vistas no seu sentido positivo, ou seja, geradoras de cidadania. Todavia, é na diferença que está a riqueza da vida. Há pouco tempo mulheres não votavam. Em cada canto do mundo homens agredindo suas companheiras protegidos pela cultura machista. Um dia festivo no mundo das distinções. Lembrando das diferenças, segue esta poesia, nesta data tão contraditória (no Brasil os homens recebem salários em média de 34% maiores que as mulheres em situação igualdade laboral: a maior entre os países pesquisados pela Federação Internacional dos Trabalhadores):
Dos odores e das flores
Passa o vulto de mulher desfilando na Europa de botas
- “Onde estás, Dolores, que teus filhos pedem comida na solidão da casa?”
Caminha em altar a nobre loira em sua fantasia de neve
-“E tu, Antônia, que ainda desenha o verde da roça a esta hora, depois do sol?”
O perfume feminino, decerto vindo de França, perturba os sentidos
-“Quando te sentes mulher, Violeta que lava as roupas no Rio Paranaíba com mãos brutas?”
O narcisismo doentio das lindas burguesas vestidas em peles de animais extintos
-“Maria, corre armada que a caça fugidia alimentará tuas crias e hoje só tem farinha na mesa!”
Passa a beleza, segue a fome, caminham mulheres em mundos tão distintos e belos
- “Camponesa de rara coragem, pés de barro, mãos de aço, a revolução ainda está em ti!”
Eduardo Borges
Barcelona
Dos odores e das flores
Passa o vulto de mulher desfilando na Europa de botas
- “Onde estás, Dolores, que teus filhos pedem comida na solidão da casa?”
Caminha em altar a nobre loira em sua fantasia de neve
-“E tu, Antônia, que ainda desenha o verde da roça a esta hora, depois do sol?”
O perfume feminino, decerto vindo de França, perturba os sentidos
-“Quando te sentes mulher, Violeta que lava as roupas no Rio Paranaíba com mãos brutas?”
O narcisismo doentio das lindas burguesas vestidas em peles de animais extintos
-“Maria, corre armada que a caça fugidia alimentará tuas crias e hoje só tem farinha na mesa!”
Passa a beleza, segue a fome, caminham mulheres em mundos tão distintos e belos
- “Camponesa de rara coragem, pés de barro, mãos de aço, a revolução ainda está em ti!”
Eduardo Borges
Barcelona
quinta-feira, 5 de março de 2009
Minha terra além da noite
Esta poesia, que estará no livro ROTEIRO DO DESAJUSTE, esteve na final do POEMARÁ, e refere a meu laço louco com São Luís:
Minha terra além da noite
O tambor
A crioula rodando
Mãos acariciando a pele
do boi morto que ainda urra
Minha mente confusa firme esmurra
o chão centenário
Um cheiro de álcool e fumaça cruza
transes levantando saias por detrás
dos mudos rosários
Casarões dançam entre pés descalços
Tudo penso e tanto faz
Minha terra tem batuque onde cantam os Orixás
(Eduardo Borges)
Minha terra além da noite
O tambor
A crioula rodando
Mãos acariciando a pele
do boi morto que ainda urra
Minha mente confusa firme esmurra
o chão centenário
Um cheiro de álcool e fumaça cruza
transes levantando saias por detrás
dos mudos rosários
Casarões dançam entre pés descalços
Tudo penso e tanto faz
Minha terra tem batuque onde cantam os Orixás
(Eduardo Borges)
segunda-feira, 2 de março de 2009
Em 2009
Um ano após SUSSURROS estou lançando outro livro de poesias chamado ROTEIRO DO DESAJUSTE, que nasceu de um projeto baseado nas idéias de mapas e dos "roteiros" que nos invadem a cada dia nesta sociedade louca. A imagem do "bueiro" como "retrato do inconsciente coletivo urbano" perpassa o trabalho. Qual o mapa das misérias humanas? Onde conceituamos os desajustes a um mundo doente? Não espero boa aceitação. Sigo na linguagem carregada, presa e livre.
domingo, 29 de junho de 2008
VOLTO A FALAR
Não tenho postado palavras no blog do SUSSURROS. Até que tenho pensado em escrever, mas deixo que passe. O livro, um mosaico do tempo, me proporcionou momentos incríveis, que não tenho sabido analisar bem. Uma hora destas saberei. Estou envolvido no término de outros trabalhos e, de certa forma, imagino que o caminho de publicações alternativas é a morte lenta. A morte, um tema recorrente no meu trabalho. Vai aqui uma lembrança muito legal: minha participação no SaLiPi. Agradecimento ao professor Romero. Alguns apoios; outras críticas veladas. Muito silêncio – a pior expressão para um autor. Eu ainda sussurro SUSSURROS.
Indo
Aos poucos me
vou perdendo,
retendo,
como um dique,
que prende e perde
o mundo - um mundo que não entendo.
Sou uma poça
de ramos nervos,
como uma esponja
gorda d’água
e sabão.
Sucumbi aos conceitos,
perdendo-me, retendo-me,
num dique,
no mundo
cão.
(Eduardo Borges)
Etéreo
A angústia não tem
pêlos nem olhos.
Ela rasteja entre nossos
pés como areia
movediça.
(Eduardo Borges)
Descaso
O sol mata
aos poucos o
trabalhador –
em translações e
rotações (imperceptíveis) –
em seu cansaço de e s p e r a n ç a,
no caixote sujo
que é almofada
para seu
descanso.
(Eduardo Borges)
Entre mundos
Teresina, minha mãe adotiva,
Tuas pontes são braços
Que me acolhem sobre o rio abandonado
Meu novo coração enterro aqui em tuas vestes
Deixo o resto do corpo para de ti ir e vir
Como cigano profano
Andarilho entre mundos de calor
(Eduardo Borges)
Indo
Aos poucos me
vou perdendo,
retendo,
como um dique,
que prende e perde
o mundo - um mundo que não entendo.
Sou uma poça
de ramos nervos,
como uma esponja
gorda d’água
e sabão.
Sucumbi aos conceitos,
perdendo-me, retendo-me,
num dique,
no mundo
cão.
(Eduardo Borges)
Etéreo
A angústia não tem
pêlos nem olhos.
Ela rasteja entre nossos
pés como areia
movediça.
(Eduardo Borges)
Descaso
O sol mata
aos poucos o
trabalhador –
em translações e
rotações (imperceptíveis) –
em seu cansaço de e s p e r a n ç a,
no caixote sujo
que é almofada
para seu
descanso.
(Eduardo Borges)
Entre mundos
Teresina, minha mãe adotiva,
Tuas pontes são braços
Que me acolhem sobre o rio abandonado
Meu novo coração enterro aqui em tuas vestes
Deixo o resto do corpo para de ti ir e vir
Como cigano profano
Andarilho entre mundos de calor
(Eduardo Borges)
domingo, 25 de maio de 2008
Homenagem ao Poeta H.Dobal
AO POETA, SEM PRESSÁGIOS
A poesia Piauiense, forte e densa, teve em Hindemburgo Dobal Teixeira um dos seus maiores representantes. Conhecido nacionalmente, H.Dobal construiu uma poesia comprometida com as pessoas e o mundo em que viveu. Obras como “O DIA SEM PRESSÁGIOS” e “TEMPO CONSEQÜÊNTE” evidenciam sua posição de vanguarda. O poeta, membro da Academia Brasiliense de Letras, nos deixou aos 80 anos. A este homem da nossa história, minhas palavras:
Aquele que fez a obra
Morre o poeta
H. Dobal
Entre a biblioteca
De seus poemas
Assim diz o Diário
Que o povo não lê
Foi-se o corpo
Ficam as letras
Eis o dito trocadilho
H. Dobal falou do
Campo e da terra
Dos muitos homens
Que somos em fonemas
De arte sólida e real
“Diz a Assembléia Legislativa
Que o corpo está ali! sem
Saber que poeta não se
Prende aos cantos de madeira”
Disse o Jornal – não diz mais –
Que o poeta morreu
Mas quem se torna palavra
Não cabe em chão nenhum
Só em mentes e bocas
Corações sedentos
Está nas folhas do mural
Morre H. Dobal
Que ainda nos mostra
O mundo fenômeno
A vida sertaneja
Um muito de nosso povo
O poeta é sempre mortal.
(Eduardo Borges)
A poesia Piauiense, forte e densa, teve em Hindemburgo Dobal Teixeira um dos seus maiores representantes. Conhecido nacionalmente, H.Dobal construiu uma poesia comprometida com as pessoas e o mundo em que viveu. Obras como “O DIA SEM PRESSÁGIOS” e “TEMPO CONSEQÜÊNTE” evidenciam sua posição de vanguarda. O poeta, membro da Academia Brasiliense de Letras, nos deixou aos 80 anos. A este homem da nossa história, minhas palavras:
Aquele que fez a obra
Morre o poeta
H. Dobal
Entre a biblioteca
De seus poemas
Assim diz o Diário
Que o povo não lê
Foi-se o corpo
Ficam as letras
Eis o dito trocadilho
H. Dobal falou do
Campo e da terra
Dos muitos homens
Que somos em fonemas
De arte sólida e real
“Diz a Assembléia Legislativa
Que o corpo está ali! sem
Saber que poeta não se
Prende aos cantos de madeira”
Disse o Jornal – não diz mais –
Que o poeta morreu
Mas quem se torna palavra
Não cabe em chão nenhum
Só em mentes e bocas
Corações sedentos
Está nas folhas do mural
Morre H. Dobal
Que ainda nos mostra
O mundo fenômeno
A vida sertaneja
Um muito de nosso povo
O poeta é sempre mortal.
(Eduardo Borges)
sábado, 19 de abril de 2008
A solidão dos Livros
A falta de um mercado editorial de poesia consolidado no nosso país dificulta muito a avaliação qualitativa da produção existente. Na realidade, as publicações alternativas, em fanzines, revistas bancadas pelos próprios autores, e, hoje em dia, em Bolg’s e Sites (internet), acabam por não ter a força de constituir um caminho para a profissionalização. Tudo muito nivelado (muitas vezes por baixo) e sem critérios. Claro que todos os espaços devem ser fortificados como opção literária e até como “lugar” para apresentação de trabalhos e poetas. É o mínimo que se espera de uma sociedade plural. Até a ausência de crítica séria e mais ampla faz falta (aí teríamos de discutir o que é uma “crítica séria”, “quem está autorizado”, etc.).
De regra, para lançar um livro, as pessoas usam recursos próprios, ou entram em projetos do Estado, dentre outras formas. Mas como divulgar e distribuir uma obra produzida pelo próprio autor? A solidão do livro não lido.
Observamos escritores com pilhas de livro em casa, em prateleiras de livrarias, num processo desestimulante. Quem compra livros de poesia?
Coloquemos este assunto na pauta do dia.
Eduardo Borges
domingo, 13 de abril de 2008
Teresina, meu sussurro abstrato
(Nosferato ou Gueto)
/Caiu um curisco na mata
Ao redor da cidade
Com seus semáforos
Trilhos e trilhas/
/Caiu um curisco
Na cidade morta
Pelo Nosferato/
/Um raio lento em preto e branco
Sob a ponte metálica/
/Um curisco cangaço/
/Vampiro em noite indigente
Nos quadrantes da Pompéia
Teresinense/
(Eduardo Borges)
.............................................................
Tudo gira impune
A tarde segue lentamente
Como a aurora atrasada
De uma noite que se
Apressa em nascer.
Sigo eu, perdido no inconsciente,
Sem identidade ou memória.
Ao meu lado, tudo gira impune...
(Eduardo Borges )
......................................
Narciso
Coloque-se: o
lugar é o outro;
o outro é
o oposto;
opressão e
espelho;
espera e desejo;
a raiva e
compulsão.
(Eduardo Borges)
(Nosferato ou Gueto)
/Caiu um curisco na mata
Ao redor da cidade
Com seus semáforos
Trilhos e trilhas/
/Caiu um curisco
Na cidade morta
Pelo Nosferato/
/Um raio lento em preto e branco
Sob a ponte metálica/
/Um curisco cangaço/
/Vampiro em noite indigente
Nos quadrantes da Pompéia
Teresinense/
(Eduardo Borges)
.............................................................
Tudo gira impune
A tarde segue lentamente
Como a aurora atrasada
De uma noite que se
Apressa em nascer.
Sigo eu, perdido no inconsciente,
Sem identidade ou memória.
Ao meu lado, tudo gira impune...
(Eduardo Borges )
......................................
Narciso
Coloque-se: o
lugar é o outro;
o outro é
o oposto;
opressão e
espelho;
espera e desejo;
a raiva e
compulsão.
(Eduardo Borges)
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Palavra do autorSUSSURROS é para mim o início. Nasceu depois que rompi com os pudores de um neófito, após mais de uma década sobre o papel. Com ele não me sinto um poeta. Sei apenas que dei um passo rumo à exposição de minha vida, o que é a minha proposta. Acredito na democracia da arte e procuro vê-la em tudo, da minha forma. Olhar uma pessoa desenhar um poema é maravilhoso. Quem dera todos escrevessem poemas! Todavia, creio que para ser poeta não basta a auto-definição. Ë preciso muito mais, quase sempre uma vida toda. Um livro é pouco: pode ser um acaso. Uma obra é seu conjunto; um escritor, suas muitas obras. Espero um dia ter livros, muitos deles, que me habilitem a ser chamado de poeta. E espero que neste dia eu ainda não me sinta nada.
SUSSURROS é para mim o meu início.
Eduardo Borges (São Luís/Teresina)
SUSSURROS é para mim o meu início.
Eduardo Borges (São Luís/Teresina)
Assinar:
Postagens (Atom)
